INTRODUÇÃO

Cyro Mascarenhas Rodrigues

Resumo


Começamos a edição do Volume 19 dos Cadernos de Ciência & Tecnologia introduzindo pequenas alterações na forma, mas procurando manter o mesmo padrão de qualidade que tem caracterizado o nosso periódico. A partir desta edição, a capa dos três números que compõem o volume terá a mesma coloração que identificará o ano de sua edição. O crédito dos consultores científicos que emitem parecer sobre os artigos submetidos será registrado no último número publicado a cada ano. Apresenta também alterações na formatação dos textos, a exemplo da redução do tamanho da fonte das referências do artigo, além da composição simultânea do Sumário/Contents. Essas são algumas das modificações que não constituem, na essência, correções de rota, mas que precisavam ser informadas aos nossos leitores.

Registramos também a realização do VII Encontro Nacional de Editores Científicos, em Atibaia, SP, em novembro do ano passado. O evento, promovido pela Associação Brasileira de Editores Científicos - Abec, teve como tema central a discussão de caminhos alternativos para o fortalecimento dos periódicos científicos brasileiros. Neste particular, vislumbraram-se alternativas de incentivo a parcerias entre sociedades científicas, órgãos de pesquisa, editoras especializadas e agências públicas financiadoras, bem como a possibilidade de fusões de periódicos dentro de uma mesma área temática. A melhoria da qualidade e da visibilidade do periódico, o financiamento e o gerenciamento eletrônico da produção editorial foram também enfatizados nas discussões.

Feitos esses esclarecimentos, passemos ao conteúdo desta edição.

O primeiro artigo, Factors affecting agricultural research, é de autoria de Mariela Bianco, da Comissão Setorial de Investigação Científica da Universidade da República do Uruguai. Nele são relatados e discutidos os resultados de uma pesquisa sobre a comunidade científica agropecuária daquele país, com o propósito de identificar fatores institucionais e características individuais que influenciam as decisões do que pesquisar. Uma das conclusões confirma os achados de outros autores segundo os quais a pesquisa científica é fortemente influenciada por fatores institucionais que impõem limites à ação dos pesquisadores. Ao lado dessas pressões institucionais que desempenham um papel importante no processo de produção científica, o perfil dos pesquisadores foi também estudado, verificando-se a correlação de algumas variáveis, a exemplo de idade e localização residencial com a orientação para o tipo de pesquisa: básica ou aplicada.

O texto seguinte "O que há de realmente novo no meio rural brasileiro" é de autoria de José Graziano da Silva, Mauro del Grossi e Clayton Campanhola. São apresentados e discutidos neste trabalho os principais resultados das duas primeiras fases de uma pesquisa iniciada em 1996, dentro do assim chamado Projeto Rurbano, que atualmente está sendo executado na sua terceira etapa. Trata-se de uma pesquisa cujos resultados, segundo os autores, está contribuindo para desbancar velhos mitos a respeito do mundo rural brasileiro. No entanto, eles reconhecem que também podem estar servindo para a criação de outros novos mitos, tais como: "as ocupações rurais não agrícolas são a solução para o desemprego"; "a reforma agrária não é mais viável"; "o novo rural não precisa de regulação pública", entre outros. Essa constatação, por si só deve aguçar a curiosidade dos leitores interessados em conhecer não apenas as dinâmicas geradoras do novo rural, como também quais políticas públicas seriam mais adequadas para tratar dessa nova dinâmica. E os autores não deixaram de fora essa questão.

Segue-se o artigo "Posição social e percepção de prioridades de pesquisa para a agricultura: levantamento de demandas no Estado da Bahia", de Sérgio Elísio Araújo Alves Peixoto, José Humberto Almeida de Cerqueira e Terezinha Matias da Silva. Trata-se de um estudo realizado com o objetivo inicial de respaldar projetos de pesquisa e assistência técnica executados pela Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola -EBDA -, no âmbito do Programa Nacional de Agricultura Familiar - Pronaf. Os resultados sinalizam demandas concebidas a partir de deficiências encontradas nos processos produtivos, bem como das expectativas que têm os atores sociais envolvidos nesse processo, dos objetivos e repercussões da tecnologia produzida para a agricultura familiar. Foram também averiguadas as variações existentes nessas demandas, a partir de diferentes domínios ecológicos onde se localizam os produtores: Semi-Árido e Subúmido.

"Cooperativas e revitalização dos espaços rurais: uma perspectiva empresarial e associativa", de Imaculata Buendía Martínez e Maria Luiza Lins e Silva Pires, esse artigo tem o mérito de resgatar o papel atual e potencial da organização cooperativa, pontificando a questão da construção e do fortalecimento do chamado "capital social" como propulsor do desenvolvimento nos espaços rurais. As autoras rejeitam o discurso que identifica o cooperativismo como instrumento de reprodução das contradições sociais, argumentando que "o cooperativismo traz consigo as inquietações que se ligam às alterações na composição geopolítica e econômica da sociedade contemporânea" (p.113). Finalmente, elas ressaltam as oportunidades reservadas à organização cooperativa no novo cenário rural, onde se fortalece a diversificação produtiva, configurada no conceito de pluriatividade muito trabalhado, nos dias atuais, por diversos pesquisadores.

O novo cenário rural resultante da intensificação e diversificação de atividades econômicas agrícolas e não agrícolas também é pano de fundo da discussão proposta por Paulo Choji Kitamura e Luiz José Maria Irias no artigo "O profissional de pesquisa & desenvolvimento rural para os novos tempos". Os autores defendem que o perfil requerido para esse tipo de profissional privilegia a formação multidisciplinar e a visão sistêmica, além de habilidades para pensar crítica e criativamente os problemas, e com vistas a soluções que integrem saberes e instrumentos pertinentes. É algo muito diferente daquela formação ultra-especializada e fragmentada, exaltada nos momentos mais marcantes da Revolução Verde. Enfim, são habilidades que transcendem a qualificação técnica centrada na racionalidade pura, porquanto se fundamentam no desenvolvimento integral do ser humano.

Na seção Debate, Maurício Mendonça, na condição de Secretário de Política Tecnológica do Ministério da Ciência e Tecnologia, defende o Projeto de Lei da Inovação que estabelece medidas de incentivo à pesquisa e inovação, além de criar mecanismos de gestão para as instituições científicas e tecnológicas, incluindo a relação dessas com as empresas de base tecnológica.

Na seção Resenhas, Maria Amália Gusmão Martins em "Reorganização institucional e sustentabilidade: a crônica dos sobreviventes" comenta o livro organizado por Sergio Salles "Ciência, Tecnologia e Inovação: a reorganização da pesquisa pública no Brasil", editado pela Komedi e pela Capes.

Esperando que este número atenda às expectativas e exigências dos nossos leitores, incentivamos os colaboradores potenciais relacionados com a ciência e tecnologia agropecuárias a publicar em nossas páginas os resultados de suas pesquisas.


Palavras-chave





DOI: http://dx.doi.org/10.35977/0104-1096.cct2002.v19.8793